• Saulo Rocha

Quem é a paternidade?

As ruas cheiram à carne e gritam o estalo das latas de cerveja. Amanheceu Dia dos Pais e, por conveniência, amanheci com vontade de escrever.


Era 1953 quando, por motivos comerciais, a razão-de-ser do 2º Domingo de Agosto foi descoberta no Brasil. Entendo que, no limite, devia haver algo que justificasse esse consenso. O dia dos pais não é fruto da ironia ou coincidência do grande-esquema-das-coisas; nem pode ser ceticamente visto como engenhosa promoção capitalista. Há algo de verdadeiramente autêntico na paternidade. O enigma foi-é-será saber o que.

Ilustração: Julia Contreiras

A própria Literatura, que considero mãe-de-não-nascimento, parece se esquivar de mim e de minha bisbilhotice. Quando encaro seus olhos e tento chamar pelo seu nome, o significado da paternidade parece rir de mim e me escapolir das mãos.


No momento em que li Vidas Secas, tornei-me amigo de Fabiano. Convivi com suas angústias, leguei a forma de meus pés às areias de um sertão esquecido e fui tão transitório quanto o pêndulo de seu nomadismo. Por vezes, tornei-me invisível como ele, deixado na mais amarga existência pelo Grande Mundo em uma terra de Grandes Donos. Era preciso continuar caminhando para alcançar minha identidade ou para servir de exemplo à minha família? Fabiano não quis me responder. Era de um lugar no mundo que eu precisava? A paternidade me parecia acinzentada, em segundo plano, mísero detalhe.


Foi, então, vez de largar a mão do mundo e reservar-me à pureza de minha existência. Juntei as partes de mim que pude encontrar, ensaquei-as e fui-me. Fui ser Terceira Margem. E lá fiquei. Lá fiquei, eu-eu-eu, no demoramento de minha solidão no perpétuo rio-rio-rio. Que valia ser pai sem poder ser rio; sem poder ser eterno? Envolvi-me em um paradigma essencialmente existencialista e para o qual não há resposta. Estávamos ali, na terceira margem do rio, eu e minha canoa. Era eu pai ou o título se ia esgotando em torno das paredes de silêncio que se erguiam à minha volta?


O abraço que dava em meu pai se prolongava e meu corpo vinha ganhando calor. Parabéns pelo dia, meu pai- eu disse a ele, sem saber propriamente o por quê pessoas conjugam e reiventam essa mesma sentença tendo maneiras tão distintivas de encarar a paternidade que herdaram. Parece que é no dia dos pais que todas as paternidades se encontram, ainda que não se saiba exatamente o denominador comum de nossas significâncias.


Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.


Feliz dia dos pais.

Saulo Rocha é aluno do 2º período da FGV Direito Rio

#ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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