• Isabella Aparício

Picasso 1932

Pablo Ruiz Picasso, pintor, escultor, ceramista, cenógrafo e poeta. Ícone. Espanhol; característica que, para Gertrude Stein, é a principal pelo sucesso da sua obra. De fases.

Engana-se quem acha que Picasso é mais um cubista. Ele passou, desde 1901 até 1919, pelos períodos Azul, Rosa, Africano e Cubista, tanto analítico quanto sintético. Nos anos 30 começa então sua fase surrealista - e a obsessão de mostrar que era o “maior artista vivo”. Em 1932, ano em que fazia 51 anos, embalado pelas exposições na galeria George Petit, em Paris, e no museu Kunsthaus, em Zurique, ele decide mostrar para o público todo o seu talento e começa a produzir quadros furiosa e freneticamente, muitas vezes em apenas um dia. The EY Exhibition: Picasso 1932 - Love, Fame, Tragedy - que eu tive a sorte de ver no último mês em Londres - vem nos mostrar justamente como foi esse ano de vida do pintor.

Tudo começou no natal de 1931. Picasso era casado com Olga, com quem não tinha um bom relacionamento. Sem paciência para as festividades do dia, o pintor sobe para seu atelier e desenha uma mulher em uma poltrona. Seus braços são lilás. Seu corpo é voluptuoso e sua cabeça tem formato de coração. Ela não tem rosto, para Olga não reconhecê-la, mas sabemos quem ela é: Marie-Thérèse Walter, 22 anos, sua amante secreta.

Ela vai ser a estrela de Picasso em 1932. Sua palheta de cores, seus olhos azuis e seu cabelo loiro vão ser perceptíveis por toda a exposição, desde a primeira obra em tons pastéis, cor de lavanda, e que nos mostra uma moça confortavelmente sentada em uma poltrona com a cabeça pendendo para trás.

Olga não sabia de nada; mas Picasso continua se encontrando com Marie-Thérèse, que se muda para um apartamento na frente do seu, e a pintando. Tudo indica que era, de fato, um amor clandestino - os nomes da pintura não indicam nada sobre a modelo, e a própria modelo é retratada de formas muito pouco convencionais, desde deitada sob um céu azul, sob uma forma que nos remete a um polvo ou numa escultura de cabeça gigante. Encontramos então Marie-Thérèse em obras cheias de seios, pênis e púbis, com representações explícitas de orgãos sexuais e traços fortes, além de cores gritantes.

Depois de junho, uma vez apresentadas as exposições, Picasso decide se dedicar a obras de menor porte e mais contemplativas; aí encontramos um dos destaques da exposição, quadros pequenos de coleções particulares com temas marítimos e desenhos. Vendo então Marie-Thérèse muito doente após nadar em um rio contaminado, ele se inspirou para fazer as obras finais da mostra, com homens desesperados tentando resgatar mulheres afogadas.

Ele não saberia, mas estava começando um dos piores momentos da sua vida. O fascismo crescia na Europa, sua amante estava doente e ele estava cada vez mais dividido entre suas duas mulheres. Em 1935, entretanto, Picasso teve um filho com Marie-Thérèse, fazendo Olga finalmente divorciar-se. Sua vida mais uma vez mudou drasticamente - mas quem é Picasso se não o rei das fases e mudanças? O interessante aqui é notar que Marie-Thérèse será sempre retratada como uma mulher forte e sempre com um olhar muito passional. Se Picasso parece grato por sua companhia - ela, mesmo nos períodos conturbados, nunca o deixou - nós, saindo de tal exposição e vendo tudo que ela inspirou, nos sentimos mais gratos ainda.

Foto de acervo pessoal


A exposição The EY Exhibition: Picasso 1932 - Love, Fame, Tragedy está em cartaz no Tate Modern, em Londres, sob curadoria de Achim Borchardt-Hume, Nancy Ireson, Laura Bruni, Juliette Rizzi, de 08 de março a 09 de setembro de 2018. A entrada custa £22 para o público geral e é gratuita para os membros do museu.

Isabella Aparício é aluna de Economia na FGV EPGE e faz parte da equipe de Edição da Revista Ágora

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ISSN: 2447-2662
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