• Seçil Bilgiç e Pedro Campos

O Grande Irmão está nos trollando?

Recentemente, o vereador Lucas de Brito afirmou que “a democracia online já é realidade”. Será mesmo? As audiências públicas realizadas pelo Senado dos EUA a respeito do papel que as empresas de tecnologia cumpriram nas últimas eleições demonstraram que “as desinformações eleitorais alcançaram cerca de 126 milhões de pessoas através do Facebook e 20 milhões de pessoas através do Instagram”.


Infelizmente, os EUA não são o único exemplo problemático. A manipulação realizada por meio das mídias sociais é um problema no mundo todo. É verdade que durante a denominada Primavera Árabe, os protestos de turcos a respeito do Parque Taksim Gezi e as manifestações brasileiras contra a Copa das Confederações, o “jornalismo civil” cresceu como um ato ostensivo de resistência contra o discurso da grande mídia. Cidadãos comuns podiam documentar o que viam com seus próprios olhos e mostrar para milhões de pessoas instantaneamente através de poucos cliques.


Dessa forma, não foi nenhuma surpresa que, em 2012, a BBC tenha dado a um documentário sobre o movimento árabe o nome de “A Revolução do Facebook”. Apesar do reducionismo falacioso que dá todo o crédito das conquistas sociais a uma mídia ocidental e não aos revolucionários “grass-roots” que, de forma brilhante, organizaram os protestos, ou mesmo aos cidadãos que arriscaram suas vidas, o termo da corporação britânica cunhou de uma vez por todas a importâncias das mídias sociais nos protestos do Século XXI.


Contudo, foi relativamente fácil se aproveitar do jornalismo civil – por exemplo, empregando trolls para disseminar fake news. Além disso, quando os trend topics do Twitter emergiram como uma medida de opiniões públicas, vários governos ao redor do mundo recorreram a trolls pro-governo para demonstrar apoio aos líderes. Por exemplo, o prefeito de uma província em Istambul acidentalmente twittou de sua própria conta sobre ele mesmo. Aparentemente, ele queria demonstrar apoio do povo ao publicar a mensagem “Arquiteto de Esenyurt, nós estamos orgulhosos de você”, mas, ao que parece, ele esqueceu de sair da sua própria conta e entrar na conta troll, evidenciando sua manobra. Esse tipo de erro acontece mais do que se imagina e nos faz lembrar que comentários online nunca devem substituir declarações públicas. Porém, claro, é impossível se detectar contas troll bem escondidas, como foi o caso de Jenna Abrams. Apesar de a Sra. Abrams ter publicado um tweet que foi capaz de causar debates nacionais nos EUA, essa pessoa nunca existiu.


Através dos poderosos trolls e da impunidade dos indivíduos que realmente estão por trás deles (nos EUA graças ao Artigo 230 do “Communications Decency Act”), o que nós consideramos realmente preocupante é a dificuldade de checar fatos que emergiu do jornalismo civil. Em relação às eleições norte-americanas, o Berkman Center conclui que:


“The more insulated right-wing media ecosystem was susceptible to sustained network propaganda and disinformation, particularly misleading negative claims about Hillary Clinton. Traditional media accountability mechanisms — for example, fact-checking sites, media watchdog groups, and cross-media criticism — appear to have wielded little influence on the insular conservative media sphere.”


Na prática, isso significa que políticos conservadores estarão sempre em vantagem nas mídias sociais. Através de trolls eles podem mentir sobre seus oponentes e demonstrar apoio de milhões de pessoas que não existem na realidade e ainda podem acusar pessoas reais que apoiam seus opositores de serem trolls. Eles podem fazer isso tudo porque “traditional media accountability mechanisms (…) appear to have wielded little influence on the insular conservative media sphere”.


À luz dessa descoberta, não podemos deixar de pensar que essa pode ser uma das razões pelas quais facções de extrema direita vêm crescendo ao redor do mundo. A vitória de Donald Trump nos EUA, o Brexit, a recente conquista de uma cadeira no parlamento alemão, o Bundestag, por um partido conservador e, claro, a manutenção de governos com legitimidades duvidosas na Turquia e no Brasil. Essa onda conservadora parece ser bem clara.


No entanto, se esse é o caso, é difícil saber o que pode reverter essa onda. Nós deveríamos não acreditar nunca no que vemos nas mídias sociais e, ao invés disso, confiar na grande mídia que costuma ter relações preocupantes com lobistas e até mesmo governos? Ou, quem sabe, deveríamos incentivar o lado liberal do espectro político a acreditar em tudo que vê nas mídias sociais, assim como seus adversários políticos, para balancear essa assimetria entre eleitores liberais e conservadores?


Melhor ainda, qual deveria ser o papel de empresas de tecnologia em relação ao uso de trolls? A Responsabilidade Social das empresas ou o papel das indústrias na promoção de direitos humanos parece um bom começo, mas o que pode servir como incentivo para que grandes empresas mergulhem nessa área sensível e tomem responsabilidade enquanto eles estão se beneficiando das suas imunidades legais? Na ausência de uma resposta para as perguntas anteriores, nos preocupa que esteja a nossa espera uma péssima combinação do Admirável Mundo Novo (em que estamos expostos a milhões de novas fontes) com 1984 (em que todas as notícias são estritamente censuradas e manipuladas).


Esse artigo se baseia em texto originalmente escrito somente por Seçil Bilgiç, disponível em https://medium.com/@seilbilgi/big-brother-is-trolling-us-14e2b970511f . Essa é uma tradução comentada feita em conjunto entre Pedro Campos e Seçil Bilgiç

Seçil Bilgiç é graduada em Direito e em Ciências Sociais pela Universidade de Koç (Turquia) e mestranda na Universidade de Harvard (EUA).

Pedro Campos é estudante no 9º período na FGV Direito Rio.


As ilustrações deste texto foram feitas pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista



ISSN: 2447-2662
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