• Daniela Cassinelli

Toda relação precisa mover-se

Eu tenho certeza que aquele sonho do prédio onde eu subia uma escada lateral tinha a ver com você. De alguma forma a arquitetura daquele prédio branco e frígido, e aquela escada à margem dando pro esqueleto do prédio me transmitiam a sua presença. E eu subia a escada sem saber onde ia dar e descia, labiríntica. Não sei se foi no mesmo sonho ou num outro muito próximo que eu descia uma escada que não dava em lugar nenhum. Era a repetição dos mesmos degraus ad infinitum. Estava presa ali. Nossa relação é essa escada. E penso na sua voz dizendo: "mas toda relação precisa ir a algum lugar?". E eu te respondo: sim. Toda relação precisa ir, se não está morta. Por mais que estejamos vivos, nossa relação está morta. Aliás, ela é natimorta. Nunca foi a lugar nenhum a não ser em meus sonhos. E agora mesmo você dizia que me amava e eu não sabia o que dizer. Fiquei tão espantada. Foi como um choque elétrico que escapou tão de repente na sua voz que imediatamente percorreu meu corpo. Quando acordo sei que jamais vai dizê-lo. Te invento de madrugada pra ver se me alivia dessa sensação estanque. Me pergunto como você me inventa. Pois é preciso inventar quando não se tem dado suficiente. E o cérebro naturalmente se empreende a tarefa de preencher as lacunas.

Nossa relação é natimorta porque da sua parte nunca houve uma vontade de avançar. A cada vez que nos encontrávamos eu tinha esperança de que você se abriria um pouco mais, e assim, mesmo que aos cacos, eu iria conseguir as peças para formar o quebra-cabeça de você. Eu esperava secretamente o dia em que entraria na sua casa sem ter que medir o som dos meus sapatos no assoalho, sorrateira como um rato. Se passados mais de um ano não tenho ainda quase nenhuma peça desse quebra-cabeça que nunca acaba – pois pessoa e imagem se transformam com a relação; estamos sempre montando e remontando quebra-cabeças - talvez você nunca vá me oferecer a porta aberta pra eu entrar a qualquer hora do dia. E quando eu digo talvez é porque eu sei. Nossa relação é como um paralelepípedo quando as relações deveriam ser esféricas, como rodas que fazem mover o carro. Eu vou seguindo e é como se carregasse essa pedra mal polida comigo, sem mesmo notar como é pesada. Todas as outras coisas avançam e eu ainda estou presa na escada. Talvez insistindo na esperança de que em algum momento irei abrir uma porta e dar num salão amplo e iluminado onde poderei enxergar o mundo lá fora. Ao invés disso, permaneço subindo e descendo degraus até perceber que não sou bem vinda ali. Resta a mim encontrar a saída - que sei muito bem onde está - e uma vez na rua, sem teto sobre a minha cabeça, sentir o ar fresco, e seguir, sabendo que só devo permanecer num edifício quando puder sentir que estou em casa.

Daniela Cassinelli é estudante no 3º período de Letras na PUC-RIO e no 5º período de Artes Visuais na UERJ.


A ilustração deste texto foi feita pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista



ISSN: 2447-2662
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