• Raul Guarini

Eu não dirijo, mas meu carro, sim


Multas por excesso de velocidade no trânsito são frequentes no Brasil. Também

são nos Estados Unidos. O que, por vezes, nos esquecemos é que as vias têm limites mínimos de velocidade também, tanto lá como aqui. Você não pode simplesmente ficar parado no meio de uma via expressa, por exemplo, a menos que tenha acontecido algum problema com o carro (mas lembre-se que existe acostamento!). Dia desses, rodava pela região de Mountain View, no Vale do Silício, um dos simpáticos carrinhos autônomos do Google. Por razões de segurança, esta unidade era programada para não passar de 40 km/h e estava atrapalhando o tráfego numa via expressa. Foi parada pela polícia e, veja só, o policial se assustou: não havia motorista!


Esse caso curioso é exemplo dos tempos que nos esperam. A tecnologia dos ditos “self-driving cars”, ou simplesmente carros autônomos, está aí, batendo à porta. Para aquele leitor mais desavisado, vai aqui uma breve explanação: não é de hoje que sabemos que a peça que mais leva a acidentes no trânsito em um automóvel é aquela precisamente colocada entre o volante e o assento, isto é, o próprio motorista. Então, um pouco nesse espírito e um pouco no espírito de fazer o que ainda ninguém tinha conseguido, várias startups começaram a desenvolver sistemas para carros que não precisariam de um humano para serem controlados. Ao menos, não como motoristas. A ideia é simples: se nossos celulares e computadores conseguem discernir impressões digitais e mesmo nossas faces, sem as confundir com a de nossos amigos, por que não poderia um sistema bem treinado, junto com uma boa câmera, pilotar um carro?

Quem acha que isso é “invenção maluca de gringo” muito se engana. De fato, as empresas que lideram o desenvolvimento desta tecnologia estão baseadas nos Estados Unidos, tais como o Google, a Tesla e a Apple (que ainda não se pronunciou oficialmente sobre um iCar, mas todo mundo matou a charada quando começaram a contratar engenheiros de empresas como Audi e BMW). Entretanto, há tecnologia brasileira na jogada. O pessoal da engenharia da Universidade Federal do Espírito Santo tem um projeto ousado de desenvolvimento de todo o sistema que envolve o carro, desde a parte eletrônica até adaptações necessárias na parte mecânica. Você pode conferir o belo trabalho do pessoal em https://lcadufes.wordpress.com.


Mas a conversa aqui não é sobre engenharia, apesar de ser um dos grandes desafios dos carros autônomos. Afinal, já fomos à Lua, fazemos cirurgias remotamente pela internet e viajar de trem-bala é cotidiano de alguns. É só dar tempo aos gênios do Vale do Silício (e aos do Brasil também!) que daqui a pouco já teremos um sistema enxuto. O ponto aqui é regulação. No caso do primeiro parágrafo, como proceder? O policial não tinha a quem multar, já que não havia motorista. Colocou na conta do Google, dono do carrinho, que assumiu a culpa, mas foi liberado pela justiça, e pelo bom senso. Incidentes desses de todo dia naquela região da Califórnia.

Pense o seguinte: você está dirigindo tranquilamente pela orla, seguindo a sinalização quando, de repente, uma criança atravessa correndo a rua fora da faixa de pedestres e lhe pegando de surpresa. Você vem vindo rápido e, para tentar não atropelar a criança, tem de tomar uma decisão numa fração de segundo. Pode jogar o carro para a contramão, mas aí há a ameaça de atingir outro motorista que nada tinha a ver com seu problema, um inocente, e a você próprio, numa batida entre dois carros. Pode também desviar para o outro lado, para a calçada, nesse caso incorrendo no risco de atropelar pedestres igualmente inocentes e até mesmo danificar alguma construção próxima. Foge ao escopo desta, digamos, provocação, entrar no mérito da questão. A discussão sobre justiça aqui neste exemplo fica a cargo daqueles mais bem treinados no Direito do que aquele que lhe escreve, caro leitor, e para os filósofos de plantão. O relevante é que qualquer que seja a sua decisão na árdua tarefa acima, o processo de accountability, isto é, apontar o eventual culpado, é fácil. O motorista vai ao tribunal e tudo se resolve.


Isto já não é tão verdade no caso dos carros autônomos. Nessa situação, não existe um motorista que toma a decisão e depois é julgado por ela. Existe um computador, que tem linhas de comando, instruções, sobre o que deve fazer. Qual o cálculo a ser feito pelo computador? Tentar minimizar o número de vítimas? Tentar maximizar a chance de sobreviver daqueles que serão atingidos? Não está claro. Mas mesmo que estivesse, e julgássemos equivocado, digno de punição, o princípio utilizado, de quem é a culpa pela escolha desta diretriz? Da empresa que fornece o sistema para o carro ou do programador que efetivamente escreveu as linhas de código, as instruções? Bem, se optarmos por culpar os programadores, caímos, como se diz em Minas Gerais, numa “sinuca de bico”. Estes sistemas são complexos e é impossível definir que determinada parte do sistema foi feita por João ou por José, os programadores trabalham em times, grupos. Devemos, então, culpar a todos eles? Além do mais, faz sentido falar em culpa neste caso?

Há mais perguntas que respostas, e esta talvez seja a única certeza. Aqueles que versam contra a disseminação desta tecnologia usam muitas vezes argumentos derivados das provocações acima para colocar um freio no desenvolvimento do que podemos chamar de inteligência artificial. Os mais simpáticos aos carros autônomos trazem consigo dados embaixo do braço. Segundo o próprio Google, que mensalmente toma o cuidado de divulgar uma ampla gama de dados sobre seu projeto de carros autônomos, mais de um milhão de milhas (mais de 1,6 milhões de km) já foram cobertas até o momento por sua frota autônoma, desde 2010. Os algoritmos usados são sabidamente adaptativos, baseados no que a Ciência da Computação chama de machine learning, ou seja, os carrinhos vão ficando melhores quanto mais se dirigem. Parecido com os teclados dos smartphones hoje em dia que conseguem, com o tempo, aprender os hábitos e estilo de escrita do usuário. Até o momento, foram registrados doze acidentes ao todo, com nenhuma vítima fatal e, pasmem, nenhum deles provocado pelo sistema que guia o carro sozinho. Todos os doze acidentes foram causados por humanos que, ou bateram no carro, ou estavam pilotando manualmente o carro autônomo – apesar de não ser necessário, já que esses carros tem o aparato suficiente para que os motoristas convencionais entrem em ação. Aquela velha história, “vai que...”.


Outra questão é a seguinte. Se já há indivíduos nos países desenvolvidos questionando por que ainda ensinamos às pessoas a dirigirem carros com câmbio manual, repensar o processo da “autoescola” também será necessário se os carros autônomos começarem a fazer parte de fato do nosso cotidiano. Saber indicar o caminho com a seta ou trocar o pneu será tão – ou menos! – importante quanto ter intimidade com sistemas eletrônicos. Seria o caso talvez em que precisássemos de habilitações especiais para comprar um carro desses, e provavelmente os instrutores das autoescolas precisarão de alguma fluência em linguagens de programação.

Certo, mas quem garante que o carro autônomo que estou comprando é seguro o suficiente? E, nesse caso, o que é ser seguro? Seria proteger aqueles que estão fora do carro ou aqueles que estão dentro do carro? Como um consumidor poderia identificar que o carro da Tesla, por exemplo, é mais ou menos seguro do que o do Google? A ANATEL, no Brasil, como um exemplo, checa se aparelhos eletrônicos atendem às especificações de segurança para que sejam vendidos em território nacional. Seria o caso de criar uma agência especial que regulasse que tipo de sistema pode ser ou não comercializado aqui? Ou deixaríamos o livre mercado atuar e as pessoas escolheriam naturalmente os melhores? Mais uma vez, não é clara a resposta.

Se a parte jurídica já deixa qualquer desavisado de cabelos em pé, não nos esqueçamos do lado ambiental e da questão do tráfego nas cidades. Com a Lei Seca no Brasil, muitas pessoas tomam a sábia decisão de sair com amigos, vamos dizer, para um bar para tomar um chopp no fim de semana, de táxi ou mesmo de transporte público, como metrô. Dizem que bom mesmo é a embriaguez próxima ao lar de cada um, corolário da máxima mineira “ir é fácil, quero ver voltar”. Este cético que lhe escreve, amigo leitor, gostaria de acreditar que as pessoas assim o fazem por consciência de que álcool e direção formam uma mistura nefasta.


Entretanto, a realidade impõe o fato de que as pessoas o fazem porque, ao voltarem eventualmente dirigindo, poderão ser pegas em flagrante. Ao tomarem a decisão de deixar o carro em casa, contribuem com uma cidade menos engarrafada e menos poluída.

Agora imagine só uma legião de boêmios saindo de casa com seus carros autônomos. Como não precisarão dirigir na volta para casa, o problema da Lei Seca inexiste. Existe apenas o ímpeto de ir ao bar com amigos no conforto de seu carro, estacioná-lo e depois esperar que ele o leve para casa depois da farra, são e salvo. De fato, podemos esperar mais carros nas ruas, já superlotadas nas principais cidades brasileiras, diga-se de passagem, emitindo mais CO2. Quem deve gostar da situação são os donos de estacionamentos rotativos e os folclóricos flanelinhas. Cumpre dizer que há o argumento, bastante legítimo, de que esses carros seriam mais eficientes no consumo de combustível, na grande maioria dos casos sendo carros híbridos ou totalmente elétricos, mitigando o problema da poluição adicional. Contudo, em nada resolve o problema de termos carros demais nas ruas.




É certo que ainda há grandes ideias por vir, a serem possibilitadas pelo desenvolvimento dos carros autônomos. Já existem discussões sobre a viabilidade de empresas cobrarem uma assinatura de clientes para que pudessem solicitar um carro em qualquer ponto da cidade, em qualquer hora, para se locomoverem, uma espécie de Uber com assinatura e sem nenhum motorista (o que cortaria tremendamente os custos). Ou senão, alguma locadora de carros poderia pensar em um sistema em que o cliente pega o veículo, dirige até onde bem entender, paga no cartão de crédito e o carro se dirige sozinho à sede da empresa.

No fundo, ideias novas, que fomentem a discussão e nos provoquem, nos façam pensar, são sempre bem-vindas. Mas devemos ficar atentos, ou como está na moda esses dias por força dos economistas do Banco Central, “devemos nos manter vigilantes”. As instituições, e aí compreendidos nosso princípio de legislação e do que é certo ou errado, devem evoluir, assim como evolui a tecnologia. Esta é a parte fácil do conselho. A parte mais difícil é qual direção seguir.


Boas recomendações sobre o tema:

  • Ford is testing self-driving cars in a tiny fake town - WIRED, Novembro de 2015

  • 10 Million Self-Driving Cars – Business Insider, Julho de 2015

  • Programados para matar – Tecnocast, Novembro de 2015

  • Google Driverless Cars Run Into A Problem: Cars With Driver – The New York Times, Setembro de 2015.


Raul Guarini é aluno da Escola Brasileira de Economia e Finanças - FGV/EPGE.


ISSN: 2447-2662
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