• revistagora

É preciso reinventar o Contrato Social


O mundo precisou pagar um preço alto até que os sensos de coletividade, pertencimento e solidariedade fossem tão pronunciados. Hoje, essa noção, que há meses atrás parecia tão débil, nunca foi tão necessária.


Enquanto não há sinais de vacina no horizonte, nos socorremos de métodos menos sofisticados, mas nem por isso ineficientes, para o combate à covid-19. Tanto a quarentena intermitente, quanto a sua feição mais radical, o lockdown, têm mostrado resultados: achatando a curva de transmissão, reduzindo o número de mortos e freando o colapso do sistema de saúde.


No Brasil, pelo contrário, tem sido difícil alcançar o sentimento pela coisa

comum. Não só por conta dos conspiracionistas que negam a letalidade do vírus, mas,

também, porque a covid-19 escancarou desigualdades e, diante delas, o risco da

contaminação tem vencido a necessidade da autopreservação. Muito mais que superar

a pandemia, nosso maior desafio será saber quanto o propósito pelo bem comum será

capaz de redesenhar a sociedade pós-crise: se corrigirá suas injustiças, ou se esquivará

dos seus vícios.


Ao mesmo tempo em que a luta contra a pandemia expõe a fragilidade do sistema de saúde, o governo ainda tropeça na luta pelo reajuste econômico, atolado em meio ao desemprego e ao desmonte de empresas que não têm suportado a queda brusca da demanda e da arrecadação.


Para o neoliberalismo, o Estado nunca foi tão importante, e nunca se desejou tanto que não fosse mínimo. Ainda assim, mesmo os auxílios concedidos pelo Banco Central parecem ser questionáveis – ajudarão na estabilização financeira dos ricos, mas têm pouco a oferecer aos serviços públicos subfinanciados que sofrem com os encargos da aplicação dessas políticas.


Até onde se sabe, milhões de empregados brasileiros, principalmente os informais e em situação de irregularidade, ainda encaram as dificuldades da sua própria subsistência. A realidade cortante é que não estamos totalmente juntos na crise. Sem recursos para o mínimo existencial, coletividade, pertencimento e solidariedade soam apenas como palavras vagas, ocas e de pouco valor: essas palavras não são de comer. Se ao menos pagassem boletos... A maneira como temos lidado com a pandemia do coronavírus garante a incolumidade dos interesses de alguns às custas da dignidade de outros, e a rotina do brasileiro tem se bifurcado entre o privilégio e o desfavor. Quer dizer, entre aqueles a quem o Contrato Social serve perfeitamente, e aqueles a quem a sua contrapartida é inexistente.


Nosso Contrato Social está desequilibrado, e porque desequilibrado, já não nos serve mais. A crise sublinhou os seus limites, revelou suas verdadeiras partes. Daqui em diante, reformas radicais precisam ser consideradas. Governos precisarão ter um papel mais ativo, presente e moderador na economia, um papel que assegure que direitos não sejam sacrificados pelas vicissitudes do mercado. A redistribuição como ação política precisa retornar à agenda parlamentar; privilégios precisam ser problematizados e rediscutidos; um plano para o país pós-vírus precisa começar a ser desenhado. Tudo isso dependerá de uma compreensão mais ampla e abrangente do que entendemos como Contrato Social.

ISSN: 2447-2662
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram