November 28, 2018

Toda família estrutura-se em tênues laços, sendo inevitável a discórdia com aqueles que dividimos o mesmo teto. Minha casa sempre foi composta pelos mesmos personagens: eu, minha avó, mãe e tio. Somos quatro mais os cachorros, somando seis, mas já foram cinco e também sete - nunca menos de cinco, nem mais de sete.

Minha mãe, sempre insatisfeita com a disposição da casa, propunha-se a mudanças diárias. Por vezes, em mínimos detalhes meu quarto não era o mesmo, e eu sempre o corrigia. Mamãe, contudo, era incansável: pintava as paredes e armários; alterava a estante a todo momento, colocando diferentes livros em ordens diversas; surgiam novas formas de dispor os talheres; o lixo nunca era o mesmo; e os quadros migravam da parede ao chão, às vezes sendo até doados, enquanto novos apareciam e ela os pendurava com veemência por uma semana.

A casa sempre possuiu um sem número de pinturas feias; algumas, contudo, mais agradáveis, que pertenciam ao meu tio (essencial essa...

November 21, 2018

Introdução

É preciso, para a construção deste ensaio, concordar com Adam Smith: é ingenuidade pensar que o jantar seria servido pela benevolência do açougueiro e do cervejeiro. Quem põe a mesa é a mão invisível. No entanto, também é preciso discordar de Adam Smith para a construção deste ensaio: a mão não pertence ao mercado. A mão que serve o jantar é ainda mais invisível. A mão que serve o jantar é de uma mulher.  

Margaret Douglas era a mãe do autor estudado. Enquanto Smith poderia gastar seu tempo se debruçando sobre toda a construção da teoria econômica moderna, ela lavava, passava, cuidava e cozinhava. Margaret Douglas não foi a única - ela é representativa das mulheres que são alocadas ao trabalho doméstico não remunerado e não contabilizado, encoberto pela lógica de mercado e ferramenta de exclusão econômica, política e social das mulheres até hoje.

É importante notar que trabalho, no sentido aqui empregado, deve ser diferenciado de emprego, razão pela qual não é a realização de t...

November 19, 2018

“O brasileiro é um povo esplendidamente musical”

              - Mario de Andrade

Jacob do Bandolim: leitor, você o conhece? Não me espantaria se não o conhecesse. Enquanto jovem brasileiro, sei que o Brasil desempenha

um excelente trabalho fazendo cultura, mas costuma ser péssimo disseminando-a. Simplesmente, Jacob do Bandolim é, muito provavelmente, o maior bandolinista da história. Considerado por muitos como um dos mais importantes instrumentistas da música brasileira, compôs inúmeros clássicos brasileiros do século XX, como Noites Cariocas, Doce de Coco e Vibrações. O ano de 2018 marca o centenário do nascimento desta figura lendária, cuja trajetória pessoal e musical serve de grande inspiração.

Filho de um farmacêutico capixaba e uma polaca – nome dado às prostitutas polonesas que vinham ao Rio de Janeiro no final do século XIX –, Jacob Pick Bittencourt começou a tocar bandolim por volta dos 12 anos de idade. Crescido no bairro da Lapa, no Rio de Janeir...

A Blooks, livraria que surgiu aqui do nosso lado, no Cinema Itaú da praia de Botafogo, tem uma proposta incomum, mas que se assemelha muito ao projeto da Ágora: dar voz àqueles que nem sempre são ouvidos como deveriam. Para sabermos mais sobre a história da Blooks, conversamos com a Elisa Ventura, jornalista e fundadora da livraria, que nos contou um pouco sobre como é atuar no mundo dos livros de forma independente.

P: Você poderia falar um pouco mais sobre sua trajetória, formação acadêmica e outros trabalhos além da Blooks?

Elisa: Venho de duas formações. Uma é de produção de evento, fiz muito coisa de produção de evento. A gente realiza tanta coisa aqui que eu nunca me entendi como livreira, e muito mais como uma produtora de eventos. Tive uma livraria antes da Blooks que ficava no espaço São Luiz, era uma livraria pequenininha e tal, que foi o começo mesmo de tudo e tive durante 18 anos a Aeroplano Editora, que foi uma editora que eu fui consorcia e tive o privilégio de ter como con...

November 7, 2018

Dora,

Escrevo porque o dia hoje me pediu encarecidamente. Minha cabeça soltou todos meus pensamentos de uma vez só e por aqui não tenho, ainda, alguém com quem falar besteiras sem preocupações bobas como

estou sendo compreendida?

pareço irracional dizendo isso?

e coisa e tal

Ando com preguiça de alcançar as pessoas. Ponho a culpa de tudo no frio, mas isso é por conta da mania tropical de reclamar. Não se preocupe, já estou tomando multivitaminas. Vai passar.

De volta ao que vim lhe dizer

Já te disse que gosto de olhar nos olhos das pessoas enquanto converso? Acho graça em quem se sente nu quando têm os olhos invadidos. Penso que o mundo poderia ser dividido em quem desvia o olhar e quem o sustenta, mas Dora, hoje o mundo me puxou o tapete. É difícil à beça olhar dentro de olhos que não te enxergam de volta.

O dia começou como todos os outros dias importantes começam: igual a qualquer outro. Não me deu pistas pela manhã. À tarde até mesmo tirei um cochilo. Quando vi era noite e eu já estava no...

November 4, 2018

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) é um dos tradicionais artistas da Nova York dos anos ’70. Em meio à ascensão da cultura do hip hop e do punk, foi responsável por levar os grafites às maiores galerias e contestar o elitismo da arte clássica.

Num sábado de muito sol no Centro do Rio, eu, Apa e Vergette fomos ao CCBB ver a mostra de desenhos, quadros e gravuras de Basquiat.

A exposição começa apresentando os grafites de Basquiat produzidos junto com seu amigo de escola, Al Diaz, artista das ruas de Manhattan que começou a grafitar aos 12 anos. Os dois participavam, com outros estudantes, da revista estudantil Basement Blues Press    e    foi elaborando um artigo para a revista que Basquiat concebeu a ideia do SAMO© (sigla para Same Old Shit) que, para ele, seria uma guilt free religion.

Em 1978, Diaz e Basquiat começaram a reproduzir SAMO© nas paredes de NYC, permanecendo no por pouco tempo, até venderem o artigo SAMO© Graffiti: BOOSH-WAH or CIA? Para a revista Village V...

A auto-descrição ilustra bastante: “Letrux é Letícia Novaes pós Letuce. Fênix Tijucana. Caçula e estabanada. Fossa e gozo. Climão”. A Ágora entrevistou Letícia Novaes, idealizadora da Letrux. Conversamos sobre a cena da música alternativa brasileira para novos artistas, o que aguarda nossa arte depois das eleições e descobrimos um pouco mais sobre esse projeto tão inovador no nosso espaço musical.

A gente queria começar perguntando o que você faz na Letrux, como você descreve seu trabalho?
Letrux: Ah, eu me considero mais escritora do que cantora, na verdade, apesar de hoje em dia estar vivendo muito mais o canto do que a escrita, né. Mas, na minha cabeça, a minha funcionalidade mental, é de uma pessoa que escreve. Eu comecei a escrever antes de cantar, comecei a escrever antes de atuar, então eu acho que o primeiro barato das artes foi a literatura. E aí comecei a escrever diário, sempre tive uma agenda, caderninhos, poesia e aí a música veio depois da literatura. Acho que comecei escr...

October 24, 2018

A faca fazia semicircunferências naquele amontoado de amido que mais tarde aprendi a chamar de pão.

A destreza era invejável.

Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização, a determinação e a habilidade de meu pai em passar geleia de morango sobre aquela superfície seca nos cafés da manhã. Eu o observava admirado, ainda observo.

“- Quer um pedaço, filho?”

Fiz que sim de imediato e ele, sempre seguro de si, esperou pela minha reação como quem espera o improvável resultado das lotéricas. Minha mãe bem tinha me avisado para lavar as mãos. Nunca liguei, e meu pai tampouco. Mordi o dedo, estrategicamente esperando que ele me fizesse mais uma fatia daquele exagero sinestésico de sabores que nunca antes havia experimentado.

Com entusiasmo, foi me oferecendo as suas misturas paraenses.

“- Que tal botar banana nesse seu arroz com feijão, filho?”

Talvez, a simples torrada tenha vingado a vez em que dormi e não pude ver meu pai fracassar miseravelmente em ter a minha atenção enquanto falava das...

October 17, 2018

Introdução

Ao longo dos séculos, muito foi discutido sobre os sexos e gêneros masculino e feminino. Com os avanços do debate e do suporte supostamente biológico oferecido pela ciência, o discurso sobre esses temas mudou muito. O discurso biológico mostrou-se um mecanismo de sustentação para um discurso político que promove a ideologia de sua época. Dessa forma, podemos ver cada vez mais avanços nestes temas tanto por parte da sociedade como pelas leis vigentes, dando mais espaço e representatividade para as vozes do tema em disputa. A visão aqui apresentada mostra como há uma disputa de relações de poder para definir o corpo do outro, mas que também pode variar com a cultura. A visão da sociedade ocidental tradicional não pode ser generalizada para o mundo. Em todos os casos, por mais diferentes e relativos que sejam, ocorre o processo de construção social em cima dos corpos.

Intersexuais, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que passou a se interessar...

October 15, 2018

Caras leitoras e caros leitores,

Peço a licença de vocês pra fazer um post do Arquivo Ágora que é mais pessoal do que os outros. Quando escrevi sobre a Queermuseu, conversei com a equipe sobre ter a mesma prerrogativa, então talvez seja um problema meu não saber separar arte de personalismos. Mas peço que aturem essa dificuldade mais uma vez.

Faz quatro dias que visitei a exposição "Mulheres Radicais", na Pinacoteca de São Paulo, e continuo vendo as fotos, lendo o catálogo assiduamente e pensando nas obras sem parar. Espero fazer uma breve e completa recapitulação a vocês, sem deixar nenhum detalhe precioso de fora.

A exposição começa com uma contextualização que se faz necessária aqui também. As artistas são todas mulheres e latinoamericanas, e os trabalhos são datados de 1960-1985. Antes da entrada, na parede, uma linha do tempo. O Brasil foi um dos países que concedeu às mulheres o direito de votar mais cedo, em 1932. Os países latinoamericanos passaram, nesse lapso temporal, por ditad...

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ISSN: 2447-2662
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