April 28, 2019

As más-línguas têm amaldiçoado o ensino das humanidades. A sua criatividade reacionária teima em se justificar no pouco retorno trazido ao contribuinte pelas artes, filosofia, sociologia, pelo ensino das letras e das coisas-humanas, quais sejam.

Ameaçadas por um tom desumanizante e pela obscuridade dos nossos tempos, estar em defesa das humanidades nunca foi tão urgente.

O fazer artístico está contido essencialmente no artista. É segredo dele realizar sua obra tão bem que quase esqueçamos de indagar com que propósito foi feita, pela admiração pura que o modo como o fez em nós suscita. Não existe realmente essa coisa conhecida como Arte. Existem somente artistas, cuja interpretação, a imaginação e os dons que transpira dão forma e cores a um novo corpo. A este corpo chamamos Arte.

Na seara da criação espontânea estão os artistas plásticos, os músicos, os poetas e os-de-prosa. Os que rabiscam, esboçam e pintam; os que harmonizam e cantarolam; os que muito sentem e confessam; os que sempre t...

October 24, 2018

A faca fazia semicircunferências naquele amontoado de amido que mais tarde aprendi a chamar de pão.

A destreza era invejável.

Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização, a determinação e a habilidade de meu pai em passar geleia de morango sobre aquela superfície seca nos cafés da manhã. Eu o observava admirado, ainda observo.

“- Quer um pedaço, filho?”

Fiz que sim de imediato e ele, sempre seguro de si, esperou pela minha reação como quem espera o improvável resultado das lotéricas. Minha mãe bem tinha me avisado para lavar as mãos. Nunca liguei, e meu pai tampouco. Mordi o dedo, estrategicamente esperando que ele me fizesse mais uma fatia daquele exagero sinestésico de sabores que nunca antes havia experimentado.

Com entusiasmo, foi me oferecendo as suas misturas paraenses.

“- Que tal botar banana nesse seu arroz com feijão, filho?”

Talvez, a simples torrada tenha vingado a vez em que dormi e não pude ver meu pai fracassar miseravelmente em ter a minha atenção enquanto falava das...

September 5, 2018

As vidas mais perturbadas ensaiavam seus caminhos no sorrir das estrelas do último domingo. Mesmo os de casa própria ou os de morada nas ruas, nosso inconsciente toque de recolher sussurrava um “já é tarde”. Passos largos encardiam os pés dos que andavam. Mãos ofegantes suavam o volante dos que dirigiam. As cortinas se fechavam para o primeiro domingo de setembro no Rio de Janeiro e, se segunda-feira não tivesse demorado tanto a se levantar, talvez o grande-esquema-das-coisas esquecesse do fogo carrasco que fez acinzentar o Museu Nacional.

Ungidos no espírito do tempo, museus guardam itens de valor inestimável. Afrescos, ornamentos, pinturas, relicários fósseis e outras inumeráveis expressões da Arte e da História marcham compassadamente a fim de alinhar as vértebras da trajetória humana fora dos domínios mercadológicos. Tão sacros para a História como são as igrejas, templos, mesquitas e terreiros para as Religiões, museus são revestidos de patrimônio cultural....

August 13, 2018

As ruas cheiram à carne e gritam o estalo das latas de cerveja. Amanheceu Dia dos Pais e, por conveniência, amanheci com vontade de escrever. 

Era 1953 quando, por motivos comerciais, a razão-de-ser do 2º Domingo de Agosto foi descoberta no Brasil. Entendo que, no limite, devia haver algo que justificasse esse consenso. O dia dos pais não é fruto da ironia ou coincidência do grande-esquema-das-coisas; nem pode ser ceticamente visto como engenhosa promoção capitalista. Há algo de verdadeiramente autêntico na paternidade. O enigma foi-é-será saber o que. 

 Ilustração: Julia  Contreiras

A própria Literatura, que considero mãe-de-não-nascimento, parece se esquivar de mim e de minha bisbilhotice. Quando encaro seus olhos e tento chamar pelo seu nome, o significado da paternidade parece rir de mim e me escapolir das mãos. 

No momento em que li Vidas Secas, tornei-me amigo de Fabiano. Convivi com suas angústias, leguei a forma de meus pés às areias de um sertão esquecido e fui tão transitóri...

July 14, 2018

#16 de Jacson Pollock, acervo no MAM-Rio

Diante do anúncio de venda do único exemplar da obra de Jackson Pollock no Brasil, hoje exposto no Museu de Arte Moderna (MAM-Rio), vemos efervescer um debate não mais cultural do que político: o que esperar de instituições que, em tempos de crise, sacrificam a Arte?

A decisão foi defendida pelo Ministério da Cultura e surgiu como medida autossustentável, tendo em vista o déficit de 1,5 milhões de reais enfrentado pelo museu. Se abraçada, seria a primeira vez que o Brasil estaria se desfazendo de uma obra do seu acervo para se capitalizar. Nitidamente, nesse estado das coisas, a venda da obra não diz respeito a uma questão de opinião, mas de necessidade. Sejamos objetivos e, no limite, honestos: não é mistério algum que a Arte não é devidamente valorizada, tanto no Brasil quanto pelo Brasil, se não em debates que atestam austeridade e polarização crítica. Um conservadorismo careta e míope versus um progressismo que se vende exageradamente virtuoso...

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ISSN: 2447-2662
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