October 23, 2019

Eu passo muito tempo ouvindo música. O universo de escolha ganhou imensidão depois dos streamings e da revolução que a internet representou no cenário musical.

Mas, pra mim, descobrir artistas novos nunca foi uma atividade momentânea, a música nunca foi barulho de fundo enquanto eu prestava atenção em outras coisas. É um ofício importante, que exige muitas etapas. Depois de descobrir uma música, era preciso ouvir as outras. E escutar as performances ao vivo. E encontrar possíveis covers de outras músicas. E assim em diante.

A última etapa sempre foi a minha favorita: a música não podia ficar guardada comigo, aprisionada a um único par de fones de ouvido, restrita a um único trajeto até a faculdade. Eu precisava compartilhar, mostrar pra quem quer que fosse, a catarse nova do mês. E que prazer era encontrar gente que fazia o mesmo.

E foi assim que eu descobri uma das minhas mais recentes (e avassaladoras) paixões. Deitada na cama de um apartamento com o ar condicionado a mil por hora pra c...

November 21, 2018

Introdução

É preciso, para a construção deste ensaio, concordar com Adam Smith: é ingenuidade pensar que o jantar seria servido pela benevolência do açougueiro e do cervejeiro. Quem põe a mesa é a mão invisível. No entanto, também é preciso discordar de Adam Smith para a construção deste ensaio: a mão não pertence ao mercado. A mão que serve o jantar é ainda mais invisível. A mão que serve o jantar é de uma mulher.  

Margaret Douglas era a mãe do autor estudado. Enquanto Smith poderia gastar seu tempo se debruçando sobre toda a construção da teoria econômica moderna, ela lavava, passava, cuidava e cozinhava. Margaret Douglas não foi a única - ela é representativa das mulheres que são alocadas ao trabalho doméstico não remunerado e não contabilizado, encoberto pela lógica de mercado e ferramenta de exclusão econômica, política e social das mulheres até hoje.

É importante notar que trabalho, no sentido aqui empregado, deve ser diferenciado de emprego, razão pela qual não é a realização de t...

October 15, 2018

Caras leitoras e caros leitores,

Peço a licença de vocês pra fazer um post do Arquivo Ágora que é mais pessoal do que os outros. Quando escrevi sobre a Queermuseu, conversei com a equipe sobre ter a mesma prerrogativa, então talvez seja um problema meu não saber separar arte de personalismos. Mas peço que aturem essa dificuldade mais uma vez.

Faz quatro dias que visitei a exposição "Mulheres Radicais", na Pinacoteca de São Paulo, e continuo vendo as fotos, lendo o catálogo assiduamente e pensando nas obras sem parar. Espero fazer uma breve e completa recapitulação a vocês, sem deixar nenhum detalhe precioso de fora.

A exposição começa com uma contextualização que se faz necessária aqui também. As artistas são todas mulheres e latinoamericanas, e os trabalhos são datados de 1960-1985. Antes da entrada, na parede, uma linha do tempo. O Brasil foi um dos países que concedeu às mulheres o direito de votar mais cedo, em 1932. Os países latinoamericanos passaram, nesse lapso temporal, por ditad...

September 16, 2018

A Queermuseu invadiu o Rio de Janeiro. Apesar de calada em Porto Alegre, por ter sido suspensa antes do tempo previsto, a exposição voltou. Mais questionadora, mais polêmica, mais queer, vem acompanhada do subtítulo mais do que adequado: "Cartografias da Diferença na Arte Brasileira".

A exposição rompe paradigmas há muito tempo. Além de instigar debates sobre o que é arte e o que o deixa de ser, abre espaço para artistas manifestarem pautas frequentemente marginalizadas e invisibilizadas. Daí a importância de, mesmo com toda a censura realizada previamente, no Santander Cultural, a mostra voltar e retratar questões de gênero, de diversidade cultural e de lutas raciais.

As obras são extremamente intensas. Não há nada que não estimule reflexões sedentas por espaço no debate artístico brasileiro. Nossa arte é elitizada. Desde o acesso à matéria prima até o networking necessário para expor em reconhecidas galerias, passando, inevitavelmente, pelo conteúdo das obras produzidas, tudo isso é di...

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ISSN: 2447-2662
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