ISSN: 2447-2662
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October 31, 2019

“Everybody says this place is beautiful

And you'd be so crazy to say goodbye

But everything's the same, this town is pitiful

And I'll be getting out

As soon as I can fly”

Sobre como as coisas mudam. Um ano. É tudo. É nada. É muito e muito pouco. Há um ano eu escutava uma música repetidas vezes durante dias. Não que isso seja algo diferente do que estou acostumada a fazer. Quando eu gosto de uma música, ouço-a incansavelmente (até cansar). A diferença entre essa vez e as outras foi a música e, principalmente, o que eu sentia enquanto a escutava. Ela me teve desde o primeiro momento. Gosto de acreditar que a letra dela me chamou. Tinha muito do que eu era. Ou do que eu queria ser.


Era Talihina Sky (na versão acústica, por favor), de Kings of Leon, que é, também, o nome do documentário da banda. Não é novidade eu estar escutando Kings of Leon em um looping infinito. Foi em 2015, provavelmente, que eu li uma matéria da Capricho que falava sobre a banda e ela se tornou a minha favorita. Desde en...

October 23, 2019

Eu passo muito tempo ouvindo música. O universo de escolha ganhou imensidão depois dos streamings e da revolução que a internet representou no cenário musical.

Mas, pra mim, descobrir artistas novos nunca foi uma atividade momentânea, a música nunca foi barulho de fundo enquanto eu prestava atenção em outras coisas. É um ofício importante, que exige muitas etapas. Depois de descobrir uma música, era preciso ouvir as outras. E escutar as performances ao vivo. E encontrar possíveis covers de outras músicas. E assim em diante.

A última etapa sempre foi a minha favorita: a música não podia ficar guardada comigo, aprisionada a um único par de fones de ouvido, restrita a um único trajeto até a faculdade. Eu precisava compartilhar, mostrar pra quem quer que fosse, a catarse nova do mês. E que prazer era encontrar gente que fazia o mesmo.

E foi assim que eu descobri uma das minhas mais recentes (e avassaladoras) paixões. Deitada na cama de um apartamento com o ar condicionado a mil por hora pra c...

May 19, 2019

O tempo que passou na Europa trouxera novos ares para a vida de Dr Simão Bacamarte: ao passo que o homem inspirava demasiado conhecimento sobre psiquiatria e entendimento da mente humana, oxigenava ideias “inovadoras” para resolver os problemas de distúrbios psiquiátricos que ocorriam em sua terra natal – o Brasil. À luz de constatações duvidosas, que naquele tempo os estudiosos europeus elaboravam a respeito dos possíveis tratamentos para “loucos”, o Alienista de Machado de Assis construíra um manicômio em sua cidade: uma grande casa verde capaz de abrigar e tratar todos aqueles que pela loucura estavam acometidos.

Não por acaso, a arte do célebre escritor estava imitando a vida que no Brasil acontecia. Isso porque, ao fim do século XIX – mesmo tempo em que a obra machadiana ganhou vida – se iniciou no Brasil a implantação

de hospitais destinados ao “tratamento” de pessoas que sofriam com transtornos psíquicos: casas grandiosas, com capacidade de receber os que da “loucura” sofriam, e c...

April 28, 2019

As más-línguas têm amaldiçoado o ensino das humanidades. A sua criatividade reacionária teima em se justificar no pouco retorno trazido ao contribuinte pelas artes, filosofia, sociologia, pelo ensino das letras e das coisas-humanas, quais sejam.

Ameaçadas por um tom desumanizante e pela obscuridade dos nossos tempos, estar em defesa das humanidades nunca foi tão urgente.

O fazer artístico está contido essencialmente no artista. É segredo dele realizar sua obra tão bem que quase esqueçamos de indagar com que propósito foi feita, pela admiração pura que o modo como o fez em nós suscita. Não existe realmente essa coisa conhecida como Arte. Existem somente artistas, cuja interpretação, a imaginação e os dons que transpira dão forma e cores a um novo corpo. A este corpo chamamos Arte.

Na seara da criação espontânea estão os artistas plásticos, os músicos, os poetas e os-de-prosa. Os que rabiscam, esboçam e pintam; os que harmonizam e cantarolam; os que muito sentem e confessam; os que sempre t...

April 24, 2019

Cheiro dela em mim.
Cheiro dela no meu pescoço,
na minha barba,
e no rosto.


Gosto dela nos meus lábios
e dos seus lábios nos meus dedos.
Gosto dela e seu cheiro,
sorriso e floreio


Doce cheiro,
amargurado não pela sua essência
e sim pelo olfato traumatizado
de sentir muito,
-aroma marcante que se foi.


Gosto do cheiro dela em mim.
De sentir e beijar,
dormir e gozar...


Mas sei.
Sinto.
Quebro minha cabeça,
assumo.
Sofro,
pondero,
aceito.


Gosto do cheiro dela em mim.
Mas gosto mais do meu.
Talvez por questão de hora ou momento, 

coração ou sentimento,
sei que está na hora
de me escutar,
me curtir,
ser.


Diferente, claro,
Viver isso.
Não é fácil, claro,
falar isso.


Quero ser pássaro,
sentir outros aromas.
Voar, despreocupado,
em busca de novas flores.


Quero ser flor também.
E além de cuidado,
Ter o perfume apreciado,
Quero que me deixe,


Na minha natureza
No meu lugar
Onde eu estiver que estar


Livre,
E eu.

Leonardo Menescal é estudante do 5º período de Administração na Universidade Federal do Ri...

April 17, 2019

De joelhos num campo aberto

Ouço o tiro da largada

Mas não sei de onde veio o estouro

Nem em que direção fica

a faixa de chegada

Outro tiro

escolho a rota do vento

Mas era o sopro

da minha irmãzinha nas velas coloridas do seu bolo de aniversário

Mais um ano se passou e ainda não tive tempo

pra contar pra ela as histórias daquelas mulheres

que já corriam antes de nós.

Outro tiro

Faço uni-duni-tê

E vou voando para o horizonte

Como um afogado que

Confundido pelas marés

Nada em direção ao fundo do mar

A largada continua a soar

De novo e de novo

Tem o som do meu alarme todas as manhãs

Mas eu nunca acordo

Tem o som dos casamentos e nascimentos e mortes

Mas eu não nasço nem morro

e ao que parece também não vou casar

Tem o som do meu professor que diz meu nome na chamada

mas eu nunca estou

Tem o som do relógio que bate 3 da manhã

e eu nunca estou dormindo quando deveria

Tem o som perfeito das festas

as quais persigo

para as quais me arrumo

mas estou sempre atrasada

Tem o som insuportável do silêncio

que arde quando alguém não...

April 10, 2019

Quando eu nasci, os anjos

estavam de folga e o substituto

que não entendia o trabalho, aconselhou:

sofra por si e não pelos outros 

O ascendente sagitariano chora

pelo escorpiano em si as almas

Escondendo em si as almas 

de tantos que conseguiram quebrar suas

barreiras

Tarefa complexa para um homem que

sente

mais do que dizem que deve sentir

mais do que manifesta a olhos famintos

mais do que acredita ser natural

Meu avô já dizia ter se arrependido

de ter sido justo, mas nunca de ter sido

bom

Pessoalmente prefiro ser lógico

a justiça que se molde nas minhas escolhas

a bondade que se entranhe nas minhas

opiniões

Intensidade como nome do meio

controle intenso como nome final

O desequilíbrio existe onde não deveria

Eu existo.

Simplesmente existo.     

João Gabriel Direito é aluno do 7º período da FGV Direito Rio

A foto é da Isadora Dutra, ilustradora da nossa 13ª edição.   

Meu amor é verdadeiro, é forte,

Ele é vivo e maior, 

Exige mais do que o corpo,

É tanto, que transborda;

Feliz é aquele que passa por perto,

Na simplicidade do seu cotidiano,

E nele respinga esse sentimento profundo.

Seria egoísmo impedir que transborde?

Ou seria tolice desperdiçar minha sorte?

Afinal, que sorte é essa pela qual tanto se sofre?

Dor do excesso que não sei como não explode,

Ou será que explode?

Será que quando chega,

Quem você tanto ama,

É que se reconstrói? 

Espero que não.

Seria muita bondade, ou mero desperdício,

Que todo aquele amor caísse por aí,

Sem que atingisse seu motivo de ser,

Mas ficasse a mercê do primeiro que o vir.

Sei que escrevo para não descobrir,

Pois deixo um pouco de amor por aqui (ou seria aí?)

Acho que assim ainda me aguento,

De toda a sorte desse sofrimento,

Que cruza o oceano e não sai de mim,

Mas aquece a alma e me completa assim.

Rodrigo Tamussino Roll é estudante do 7º período da FGV.

A foto é da Isadora Dutra, ilustradora da nossa 13ª edição

February 18, 2019

Selma, Alabama nos Estados Unidos, para um despercebido, é apenas mais uma cidade onde o vento passeia junto com as atividades irrelevantes de seus moradores. Com 18.370 habitantes (2017), a cidade possui uma arquitetura típica do antigo sul do país, com edifícios baixos e casas centenárias, mas seu passado está longe de ser pacato.

Escolhida como centro das atividades da luta contra desigualdade racial presente em alguns estados sulistas americanos pela SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee, em tradução, Comitê de Coordenação Estudantil Não Violenta) e pela SCLC (Southern Christian Leadership Conference, ou Conferência da Liderança Cristã do Sul) - tendo essas organizações como figura central e visada tanto pela força policial quanto pela mídia internacional o próprio Luther King - e também como um dos pontos de segregação racial nas esferas de direitos civis.

O simbolismo que toda parte urbana de Selma carrega é poderosamente centralizado na ponte Edmund Pettus. Sua...

November 28, 2018

Toda família estrutura-se em tênues laços, sendo inevitável a discórdia com aqueles que dividimos o mesmo teto. Minha casa sempre foi composta pelos mesmos personagens: eu, minha avó, mãe e tio. Somos quatro mais os cachorros, somando seis, mas já foram cinco e também sete - nunca menos de cinco, nem mais de sete.

Minha mãe, sempre insatisfeita com a disposição da casa, propunha-se a mudanças diárias. Por vezes, em mínimos detalhes meu quarto não era o mesmo, e eu sempre o corrigia. Mamãe, contudo, era incansável: pintava as paredes e armários; alterava a estante a todo momento, colocando diferentes livros em ordens diversas; surgiam novas formas de dispor os talheres; o lixo nunca era o mesmo; e os quadros migravam da parede ao chão, às vezes sendo até doados, enquanto novos apareciam e ela os pendurava com veemência por uma semana.

A casa sempre possuiu um sem número de pinturas feias; algumas, contudo, mais agradáveis, que pertenciam ao meu tio (essencial essa...

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